OS RITOS DE PASSAGENS

 

Na força e na felicidade da paz provenientes do Poder Divino, que suas vidas possam seguir seu destino sem interferências negativas ou ossogbos.

Daqui a dois dias, um filho de santo de nossa Casa, Luciano, estará em meio a um ritual de passagem na academia e, tenho certeza, será muito exitoso.

Os ritos de passagem marcam nossas vidas desde sempre: alguns se dão de modo espontâneo, outros de forma mais consciente. Este foi voluntário e consciente: com o desejo, a busca por uma instituição, por um mestre e abertura para compreender as regras acadêmicas, o "jogo" de como andar neste espaço, com a necessidade de ultrapassar desafios menores durante anos até o último grande desafio da defesa, que é mais um ato público de consagração na vida acadêmica e, junto com ela, uma nova fase de reinício, mas com um título e mais experiência. Nada acabou. Ao contrário, ao findar o mestrado nova etapa se descortina no desafio "da vida que segue" e se faz valer, não mais apenas falar e escrever, e sim fazer-se um acadêmico.

Ufa!

Este fim é o começo. Você, Luciano, sempre soube disto desde que entrou no mestrado. Com relação ao doutorado, se assim o desejar, terá a base, mas terá de começar a caminhada de novo com desafios novos, enfim, recomeçar.

Guardadas as devidas especificidades, farei uma analogia entre vida acadêmica e vida iniciática nos terreiros.

Em primeiro lugar, é preciso optar uma das áreas do conhecimento, quais sejam: exatas, humanas e biológicas, para darmos o “start” da vida acadêmica. Mas isto não significa que eu não possa ter formação nas três áreas, apenas que, para tanto, preciso cursar as três áreas dedicando-me às múltiplas formações. A propósito, tais áreas não incomunicáveis, mas dialogam e possuem disciplinas, procedimentos, metodologias em comum.

Já nos terreiros normalmente começamos nossa iniciação por um dos núcleos duros, podendo ser ou pelas umbandas, encantarias ou candomblés.

Se desejarmos a formação nos três, assim como no mundo acadêmico, teremos de ter três "graduações", neste caso, iniciações diferentes.

Cada formação tem suas particularidades. Há pessoas no mundo acadêmico que param na graduação, outros na especialização, outros no mestrado, outros no doutorado, outros no pós-doc, enfim, o caminho tem uma diversidade de inícios, meios e fins atendendo a cada individualidade.

A iniciação é a mesma coisa. Alguns terão para si a vida iniciática, outros não, o que atende ao destino de cada um. Isto, ressalto, não coloca as pessoas em diferentes graus de importância na vida, e sim relativiza os destinos.

Mas, iniciandxs ou iniciadxs, é certo que sempre estamos e estaremos à mercê de novas etapas, novos desafios. A consagração de uma etapa é sempre o marco do início da próxima fase.

Este caminho é feito no caminhar. A vida iniciática não cessa, ela sempre está em construção.

Entendo o salto de filhx para pai ou mãe de santo como um momento rico da vida iniciática, quando passamos de responsáveis de nosso destino para corresponsáveis, de modo direto, por centenas de destinos, colocando em evidência a responsabilidade coletiva em detrimento de nossos interesses e preocupações pessoais. Iniciamos mais uma fase, na qualidade de mãe e pai de santo, mais delicada e "perigosa", pois estaremos lidando com pessoas, com destinos e sob a batuta do Poder Divino.

Os ritos de passagens marcam as etapas de nossa vida e apontam também para o fato de termos tido empenho em nossas empreitadas, que nos fazem mais vividxs, mais madurxs e também mais responsáveis por nossa vida e pela vida das pessoas envolvidas neste processo.

Ao saudar nosso filho de santo neste rito de passagem também saúdo a milhares de pessoas que estão realizando seus ritos de passagens na academia e nos terreiros.

 

Iku lailai

Vida longa

Alafia

Felicidade

Odara

Bem-aventurança

Awre ô

Bons auspícios

 

Mãe Maria Elise Rivas

Íyá Bê Ty Ogodô

Mestra Yamaracyê