OICD E A INICIAÇÃO

 

A OICD é uma instituição que tem como objetivo desenvolver a Iniciação, promover o diálogo e a difusão da cultura afro-brasileira. Entendamos que a Iniciação e o diálogo, na OICD, se dão no e entre os três núcleos duros das RABs, sendo eles: as umbandas, encantarias e candomblés, logo para compreendermos este conceito se faz necessário observar a diversidade inerente aos três núcleos duros e o envolvimento da OICD com este processo. 
Cada núcleo é possuidor de ética, epistemologia e método, que se tornam ainda mais específicos e particularizados quando penetramos nas escolas (conceito cunhado por F. Rivas Neto, em Escolas das religiões afro-brasileiras: tradição oral e diversidade, publicado pela Arché Editora em 2012) que os constituem. Explico: o núcleo duro (conceito cunhado e desenvolvido por F. Rivas Neto no livro Teologia do ori-bará, no excerto final, publicado pela Arché Editora, em 2015) das umbandas, encantarias e candomblés se subdividem em escolas das religiões afro-brasileiras. Cada uma delas – escolas – tem características e especificidades próprias com a mesma importância e valor.
Os diferentes núcleos com suas respectivas escolas têm um esquema relacional, as quais, quando colocadas em “comparação”, nos permitem detectar as diferenças e semelhanças que possibilitam entender a especificidade de cada terreiro, de cada casa de santo, destacando-o como de umbanda, encantaria ou candomblé. Isto nos facilita entender a diversidade dos terreiros sem um juízo de valor ou uma régua de graus para qualificar a menor ou maior importância de cada núcleo com suas respectivas escolas. 
Assim, ao esclarecer que existem inúmeros terreiros e cada qual com sua particular interpretação da visão religiosa, sem perder sua estrutura doutrinária, sentimo-nos mais confortáveis para falar da diversidade religiosa afro-brasileira e sua rede de relações. Abrem-se, ainda, parênteses sobre o severo conflito que algumas questões sociais (processo de escravidão), biológicas (raciais e misoginia) e econômicas (classe social) acionam, imputam e estimulam, com uma visão hierárquica do mundo religioso afro-brasileiro muitas vezes calcada em questões exógenas ao pensamento teológico e doutrinário das mesmas. 
Sem desconsiderar as questões acima enfatizamos que a visão religiosa das religiões afro-brasileiras tem vários ângulos de interpretação, devido a sua diversidade, e o núcleo duro é uma primeira forma de identificação por semelhanças doutrinárias, possibilitando-nos chegar a 3 grandes grupos, denominados por Pai Rivas de núcleos duros. São eles: umbandas, encantarias e candomblés. Estes núcleos por sua vez se desdobram em uma diversidade ainda maior, a qual denominamos escolas. Estas escolas formam o mundo diverso e heterogêneo, como nas umbandas: umbanda cristã, umbanda traçada, umbandaime, umbanda sertaneja, umbandek, umbanda esotérica/Iniciática, entre outras. Também encontramos as encantarias com suas escolas: jurema, kimbanda, babassuê, terecô, xambá, candomblé de caboclo entre outras. Os candomblés por sua vez seguem a mesma diversidade e temos grosso modo os candomblés angola, nagô e jeje. 
Como é possível perceber, não há uma única umbanda, uma única encantaria nem um único candomblé. Esta diversidade vem constituir as múltiplas epistemologias (doutrinas que se constituem nas cosmovisões mais ou menos cristãs ou afro-centradas), métodos (especificidades nas formas de fazer iniciação, tipo de rituais – por exemplo, com ou sem atabaque, com roupas coloridas ou não, com homens e mulheres separados ou não dentro dos rituais, denominação por toque ou orôs, tipos de fios de conta ou guias etc.) e éticas.
A ética traz muitos questionamentos entre a diferenciação do conceito de moral e ética e deixaremos isto para o campo da filosofia. Aqui destacaremos a ética como estilo de vida, que também é diverso nos diferentes núcleos duros e mais restritos e específicos em suas variadas escolas com seus respectivos estilos de vida. Há escolas que se baseiam em todos os pressupostos cristãos, outras combinam esses pressupostos cristãos com a visão africana, e por último, há aquelas que têm maior influência do estilo de vida das inúmeras heranças africanas.
Isto leva a uma larga discussão dentro e fora das religiões afro-brasileiras, mas, tendo ou não consenso, isto ocorre e é vigente no universo dos terreiros. Outra discussão sem consenso é a homogeneização da epistemologia, método e ética, com a qual discordamos integralmente.
A OICD, ciente deste campo diverso das religiões afro-brasileiras e seguindo a esteira da formação sacerdotal de seu fundador, que passou pela iniciação nas umbandas (traçada na década de 1960, esotérica na década de 1970 – ratificada por ele para Iniciática – e tântrica constituída pelo menos nos idos da década de 1990) e candomblé e encantarias com Ernesto e de Xangô nos idos da década de 1950, sempre primou pelo respeito à diversidade entendendo que ela deve ser percebida como natural nas religiões afro-brasileiras em atendimento a sua formação multirreferencial. Portanto, as inúmeras formas de práticas de terreiro atendem a esta diversidade.
Isto nos aponta que a Iniciação nos diferentes núcleos duros e nas suas escolas específicas não deva ser algo simples, rápido e homogêneo. Do contrário, é complexa e heterogênea. Ser iniciadx nas diversas escolas requer diversas iniciações, cada qual voltada para a especificidade de cada escola. Portanto, embora a OICD tenha em sua estrutura de escola de Iniciação a formação nos três núcleos e em escolas específicas, não o faz de forma indiferenciada e simplista nem ao menos de modo caótico. A OICD preza pela estrutura de cada núcleo duro e de suas escolas. Tem cinco terreiros, dos quais dois são de candomblé de caboclo, um em São Paulo e outro em Itanhaém; um de umbanda esotérica/iniciática em Itanhaém, um de quimbanda em São Paulo e um de candomblé nagô em Itanhaém. Vale ressaltar que são localizados em diferentes imóveis, pois há uma construção doutrinária própria com suas linguagens específicas, como seguem fotos abaixo. A iniciação é realizada por núcleos e, dentro deles, das escolas, de modo que ocorre de maneira próprio, o que demanda anos de Iniciação para legitimar e validar a Iniciação. Não basta estar ligado à OICD para ser iniciadx nas escolas anteriormente citadas. A Iniciação é capacitar a formação e ética sacerdotal dos iniciadxs para que a cumpram seu trabalho para o qual foram devidamente preparadxs. Uma escola, OICD, com traço de respeito à diversidade e que jamais olvida a formação e responsabilidade.

 

Mãe Maria Elise Rivas

Íyá Bê Ty Ogodô

Mestra Yamaracyê